Trazer um laboratório musical para o palco tornou-se possível com a apresentação do Parahyba Art Ensemble nesta terça (07), no Mercado da Ribeira, às 18h. Digamos assim: o guitarrista Chico Correa conseguiu alinhavar diversos meandros num só tecido sonoro, colocando samples e instrumentos um ao lado do outro. Fora as mixagens, realizadas sem prévio ensaio.
Foto: Marcelo Lyra
Quem esteve por lá, além de evitar o estresse de garantir senha, já que o espaço era a céu aberto, pôde conferir um som mais experimental, típico de jam session. Prometeram improviso, improviso levaram para o palco. Contudo, dava para entrever no resultado da mistura resquícios de jazz e ritmos nordestinos. Como também haviam prometido, imagens abstratas sobrepunham-se à performance dos artistas; Chico Correa revelou que a estratégia partira do VJ Spencer, que gostava de criar ambiência com luzes.
O coletivo Parahyba Art Ensemble, que se apresenta hoje, às 18h, no Mercado da Ribeira, tem como lema a experimentação de linguagens. Partindo dessa premissa, garante nada mais nada menos que o improviso tome conta de seu repertório. Ou seja, o público deve estar preparado para ser surpreendido com o choque de tendências. Sob a batuta do guitarrista Chico Correa, o instrumental encontra os sintetizadores, assim como os artistas brasileiros juntam sua experiência aos internacionais. O som torna-se atemporal e distante de possíveis classificações. As influências, contudo, são claras: jazz, free jazz, eletroacústica, música nordestina. Mas não param por aí (e nem poderiam). De resto, imagens projetadas sob o palco prometem dilatar essa experiência sonora. Fazem parte da banda o baterista americano Gregg Mervine, o multiinstrumentista belga Henry Krutzen, o francês Didier Guigue nos sintetizadores e flauta baixo, o DJ Guirraiz, o trompetista alemão Burgo, o baixista Mateus Alves e o VJ Spencer.
Durante a execução das músicas do coletivo Parahyba Art Ensemble, nesta quarta (7), às 18h, no Mercado da Ribeira, imagens se projetarão sobre os artistas com o intuito de ampliar a experiência sonora. O "happening" casa com a premissa do grupo, cujo lema é a experimentação. Para assegurar que a teoria vire prática, Chico Correa, que comanda a tertúlia, chamou tanto artistas da terra, como o turntablista DJ Guirraiz e o baixista Mateus Alves, quanto figuras do panteão internacional, representado pelo francês Didier Guigue e pelo baterista americano Gregg Mervine. O resultado é um som multifacetado, que confronta o instrumental e o eletrônico, passeando pelo jazz, a música eletroacústica e ritmos nordestinos. Confira uma prévia:
A fundação do Mercado da Ribeira, situado na rua Bernardo Vieira de Melo, remonta ao século 17, atendendo às demandas escravagistas da época. Hoje, conta com cerca de 15 lojas de artesanato nos antigos calabouços em que ficavam os escravos, além de espaço para shows. Os passantes podem aproveitar a oportunidade para adquirir artigos de couro, palha e renda, bem como as famosas máscaras de papel machê e suvenires pernambucanos. Atravessando a rua, encontram-se as ruínas do Senado de Olinda, local onde o vereador Bernardo Vieira de Melo deu o primeiro grito pela República. Em tempo: o coletivo Parahyba Art Ensemble se apresenta no Mercado nesta quarta (07), às 18h.
Mercado da Ribeira
Rua Bernardo Vieira de Melo, S/N, Ribeira, Olinda.
Casal de Volta Renda em busca de definição no relacionamento
(Vídeo realizado pelo Blog da Mimo)
"Essa é minha quase noiva e quase esposa", diz turista fluminense
As promessas sempre foram muitas, e parecia que com a viagem programada para Olinda a coisa iria mudar. Mas pelo visto a situação conjugal do casal de Volta Redonda, localizada a 130 km do Rio, tem tudo para continuar na indefinição. "Ele me prometeu uma lua de mel. Só que até agora só tô vendo mesmo a lua, o mel que é bom... nada!", fala graciosamente Sidnéia Alves, 30.
"Quase noiva e quase casada há mais de 5 anos" com o técnico naval Rafael Augustra, 25 (que está prestes a trabalhar para um das empresas que compõe a cadeia de fornecedores do Estaleiro Atlântico Sul, em Suape), eles já decidiram esticar sua estadia na Cidade Alta, em função da programação da MIMO. "Nós não esperávamos encontrar a mostra, mas que bom que está acontecendo, vamos aproveitar e ficaremos até o próximo domingo", afirma Sidnéia, já em busca de vivenciar uma verdadeira e merecida lua de mel, adiada há um bom tempo, mas desejada desde sempre.
Tapioqueira prepara o quitute (Vídeo realizado pelo Blog da Mimo)
Olinda sem tampioca, um sacrilégio
Uma Sé branca e esvaziada. Mesmo com a reforma dada quase por concluída, não foi possível instalar os novos espaços reservados às mestres da culinária regional da Cidade Alta. As tapioqueiras, deslocadas do seu reduto habitual, tiveram que preparar seus quitutes em plena Praça do Carmo, improvisada. Se para uns a comodidade veio em boa hora, para tantos outros a imagem panorâmica do Recife, observada no topo da Sé já não tem o mesmo brilho. Falta o acompanhamento. Talvez da tapioca doce, talvez do acarajé com tempero pernambucano.
Mas nem só de Sé vivem as belas paisagens do casaril olindense. A tapioqueira Severina Batista, mestre da mandioca há 3 anos, foi a única a se instalar em plena sacada do Mercado da Ribeira. Aproveitando os visitantes do Festival Mimo de Cinema, a simpática Severina não parou um minuto só. "O povo de fora ama a de coco, é a que mais sai; e a novidade desse ano é a de presunto, que o pessoal tá conhecendo agora", afirma. Também não podia ser diferente. Em plena MIMO, do topo da Ribeira, um preço mais que acessível (R$ 2) para uma tapioca daquelas do tipo Sé, recheada de vista panorâmica. O deleite realmente é assegurado!
Ruínas do que sobrou da Câmara de Vereadores de Olinda, simbolizada pela estrela (em frente ao Mercado da Ribeira)
"Aqui em 10 de novembro de 1710 Bernardo Vieira de Melo deu o primeiro grito em favor da fundação da república entre nós"
(Foto: Davi Lira / Blog da Mimo)
Olinda, República da Música
No século 17, Olinda era outra. A cidade era o centro de Pernambuco, e com a voz altiva e imponente que sempre lhe foi peculiar, resolve se debelar contra a Coroa Portuguesa. Na figura do sargento-mor e vereador, Bernardo Vieira de Melo, (conhecido nome de inúmeras ruas e avenidas do Estado) inicia-se o primeiro movimento pela independência do Brasil.
Isso. A historicamente conhecida proclamação da Independência (1822) em 7 de setembro e a da República (1889) em 11 de novembro é bem posterior ao grito lançado pelos senhores de engenho de então em 10 de novembro de 1710, data considerada até hoje feriado local em Olinda.
Mesmo não sendo aprovada pela Câmera de Vereadores (hoje em ruínas, diante do Mercado de Ribeira, foto acima), o fato é que da lembrança dos pernambucanos esse levante jamais pode ser esquecido. Até porque vai ser difícil mesmo. Toda a movimentação conseguiu ser resumida através da letra do Hino do Estado.
Se não se lembra, o Blog da Mimo reproduz o trecho aqui:
A República é filha de Olinda / Áurea estrela que fulge e não finda / De esplendor com os seus raios de luz. / Liberdade um teu filho proclama!
» E ninguém melhor que Alceu Valença para cantar o Hino da Independência Pernambucana:
Para os que ainda não conhecem o famoso Mercado da Ribeira ou simplesmente para os que estão interessados na programação do último dia de Festival Mimo de Cinema é bom ficar atento à palestra que vai ocorrer às 15h, sobre produção musical para Cinema no Nordeste, com Fred Zero Quatro, Marcelo Gomes e Renato L, e aos documentários que vão tá rolando às 17h30 (Loki - Arnaldo Batista) e outro sobre os Mamonas Assassinas, às 20h.
Plínio fala do processo de concepção de trilhas (Vídeo realizado pelo Blog da Mimo)
Da respiração da imagem surge a trilha
Davi Lira
da equipe do Blog da Mimo
Músico, dj e instrumentista, o carioca Plínio Profeta, com a leveza que lhe é característica proferiu uma palestra de forma participativa e descontraída. "Nunca dei palestra na minha vida", brincava o compositor de trilhas que esteve neste sábado (4) no Mercado da Ribeira, em Olinda, juntamente com uma dezena de participantes. Com a proposta de apresentar um apanhado de clássicos sonoros no Cinema em conjunto com seus trabalhos mais recentes, o músico, atualmente focado na produção do próximo longa de Selton Mello, O palhaço, não fugiu à doutrina estética e tradicional dos críticos de cinema.
Não faltaram menções às já conhecidas trilhas de Bernard Herrmann em Psicose (1960): "A junção perfeita da música e da imagem, com a entrada de peso do celo", setencia Profeta; de Ennio Morricone na filme Por um punhado de dólares (1964), do memorável Sergio Leone; além é claro referências às propaladas bandas sonoras de Tubarão e King Kong.
Além dessa prevalência de trilhas baseadas em tema de personagem (light motif), tão bem trabalhadas por Ennio, Plínio destacou o recurso bem utilizado da música diagética mesclada com a não diagética, ou seja, o som ambiente e de objetos que compõe a cena se misturando com a trilha que é produzida externamente.Um trabalho interessante trazido pelo palestrante foi a trilha desenvolvida por Miles Davis, em Ascensor para o cada falso(1958). A Florence, de Jeanne Moreau, caminhando pelas ruas de Paris aflita, com sentimentos de traição e angústia no ar compõem a atmosfera captada por Davis.
Trecho do duelo em Por um punhado de dólares (Vídeo realizado pelo Blog da Mimo)
CINEMA INDEPENDENTE - Mas para Plínio Profeta, o cinema indie vive um momento diferente. "Hoje é comum perceber que os filmes independentes estão mais secos", fala o músico citando os trabalhos da cineasta argentina Lucrécia Martel (O pântano), e dos documentários de Eduardo Coutinho em geral. No entanto, ele juntamente com Selton Mello compartilham de outra visão. "Não gostamos dessa ideia de cinema seco, pouco musical. A trilha deve ser utilizada como um instrumento indultor da emoção, não vemos problemas quanto a isso".
Realmente não há problemas. Basta conferir a sequência de 7 minutos do filme Feliz Natal, de Mello, para identificar que é possível se aproprioar da força do som, sem o diálogo, mas em perfeita consonância com as imagens. O resultado expressivo não poderia ser diferente. A integração com os ruídos, fundamentada pela linguagem eletroacústica em conjunto com o acorde da viola caipira propicia uma imersão completa na cena e na narrativa fílmica do vídeo.
Em 90 minutos de vídeo, o ressurgimento de boas e irreverentes lembranças. Através de imagens inéditas e depoimentos de familiares e amigos, os Mamonas Assassinas voltam a ser reverenciados pelos milhares de fãs que deixaram desde 1996, ano do trágico acidente aéreo. Tendo como trunfo uma série de filmagens inéditas, o diretor Claudio Kahns reconta a trajetória do grupo que em menos de 10 meses invadiu o imaginário do brasileiro, de forma sarcasticamente inteligente.
Ficha técnica
Diretor e produtor Claudio Kahns Fotografia Johnny Torres João Pavese Montagem Anna Penteado Bruna Callegari Diana Zatz Felipe Igarashi Produtora Tatu Filmes
Natural do Rio Grande do Sul, a cineasta Rejane Zilles já se sente meio carioca e meio olindense. Isso porque a produtora cultural e programadora do Festival Mimo de Cinema, vive no Rio há mais de 18 anos e só de MIMO tem sete anos.
Nesta edição 2010, ela destaca a consolidação da presença de filmes em paralelo com a mostra de música, com a implantação, neste ano, do I Festival de Cinema.
No vídeo abaixo, Rejane explica como são compostas as seis mostras do festival, e cita dois filmes pernambucanos que merecem atenção especial do público: Galo Preto, O Menestrel do Coco, de Wilson Freire e Mestre Nado – Um Mundo de Sons, de Lula Queiroga
Produtora da Lume Arte fala sobre a Mostra (Vídeo realizado pelo Blog da Mimo)
REALIZADORES
Lu Araújo enfatiza importância do patrimônio histórico para a MIMO
Não são muitos os eventos culturais no Estado que se relacionam tão fortemente com o patrimônio artístico da localidade quanto a MIMO. Fortalecida pelo caráter de ser realizada em Olinda, cidade tombada pela Unesco, a mostra que completa sua sétima edição, agora, em 2010, consolida sua força e já atinge outras duas cidades, Recife, e João Pessoa, na Paraíba (desde do ano passado).
Essa realidade da MIMO, considerada umas das mostras de música mais importantes do Brasil, só se tornou possível pelo trabalho da idealizadora do projeto de concepção artística do festival, a curadora e produtora cultural, Lu Araújo, da cineasta Rejane Zilles e do diretor artístico, André Oliveira.
"A MIMO tem um muito ponto forte, ela consegue agregar cada vez mais os grandes mestres música, de 200, 300 e 400 anos em conjunto com um excelente recorte do cenário da música contemporânea", afirma Lu. Segundo ela, o caminho agora é consolidar cada vez mais o seu fortalecimento no contexto cultural da região. Mas, por enquanto, a participação de outras cidades na mostra ainda não foram confirmadas até então. Agora é torcer por mais ´filhotes´.
É no pequeno gesto que o Cinema Mudo se engradece, ainda mais ao som do piano como suporte simbólico. Essa é a proposta do Ciclo de Cinema Mudo da Mostra Mimo de Filmes. Diante da tela, clássicos da década de 20; próximo à plateia o acompanhamento simultâneo do pianista da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Cadu Pereira.
Certo que a dimensão estética do espaço de exibição, no largo da Igreja da Sé, em Olinda, favorecerá e muito o entretenimento dos visitantes com as aventuras e fantasias exóticas de 68 minutos, da continuação de “O Sheik”, lançado em 1921. Em "O filho do Skeik", gravado cinco anos depois, Rudolph Valentino, surge como Ahmed, o filho de um sheik argelino que se apaixona pela bailarina Yasmin (Vilma Banky), participanete de uma trupe de saltimbancos e ladrões. É com esse envolvimento, como pano de fundo, que emergirão as lutas de espadas e danças do ventre, elementos que vão compor a bem articulada fantasia oriental, produzida em pleno deserto do Arizona por George Fitzmaurice.
De fato "O filho do Sheik" convence em seus resultados. A idéia do duplo em Valentino, por exemplo, é interessante de se notar, e os pontos cômicos do filme, com destaque para o criado psicótico de Ahmed, acabam por agradar e muito os admiradores de clássicos como este.
Ficha técnica
Direção George Fitzmaurice Roteiro Frances Marion Fred de Gresac George Marion Música Gerard Carbonara Artur Gutmann Produção John Considine Atores Rudolph Valentino Vilma Banky Agnes Ayres
Para alguns a colagem das imagens e depoimentos, de tão intensa, chega a ser um pouco cansativa, mas para tantos outros o documentário de 67 minutos do roqueiro de carteirinha Bernardo Palmeiro, lançado em 2009, pode ser encarado como um verdadeiro mosaico de 60 anos de rock brasileiro.
Os registros em vídeo capturam desde Robertão e Erasmo Carlos, passando por Secos & Molhados, Mutantes e Blitz! até os mordeninhos NX Zero, Fresno e CPM 22. Sem esquecer é claros das divas e onipresentes coqueluches internéticas: Cansei de Ser Sexy (CSS) e Mallu Magalhães, que conseguiram espaços impensáveis na indústria (ou não) fonográfica internacional e nacional, através do canal (dito por uns) mais democrático até então existente: o Youtube.
Nessa trajetória do rock brazuca, nada de ode ao "fortalecimento do ingrediente brasileiro" e "regionalismo por regionalismo": cantoras como Pitty e grupos como Nação Zumbi demonstram que a autenticidade e inovação ultrapassam as (talvez) simples e previsíveis barreiras geográficas e estéticas da música.
Ficha técnica
Direção e Fotografia Bernardo Palmeiro Roteiro Kika Serra
Esse era o mote da programação da extinta Fluminense FM, rádio concebida em 1981 pelos jornalistas Samuel Wainer Filho e Luiz Antonio Mello. Tendo sua história projetada no curta feito em película de 35 mm, com duração de 20 minutos, a diretora Tetê Mattos mostra imagens de época e vários depoimentos de artistas e profissinais que passaram pela "A maldita". Uma rádio que revoluciou bastante, desde da abertura do espaço de divulgação para artistas como Paralamas do Sucesso, Lobão, Dado Villa-Lobos e Evandro Mesquita até pela inclusão de programas comandados interiramente por narradoras femininas.
Pela ousadia no retrato, o vídeo foi reverenciado no Festival de Curtas do Rio, em 2007, com o Prêmio do Júri Popular. Assim, mesmo para os menos adeptos ao rock dos anos 80, acompanhar o processo de reversão da ordem estabelecida, forte bandeira encampada pela Fluminense, pode ser uma boa pedida.
Ficha Técnica
Direção Tetê Mattos Produção Izabella Faya Fotografia Alex Araripe Roteiro Tetê Mattos Depoimentos Luiz Antonio Mello, Sergio Vasconcellos, Amaury Santos, Monika Venerabille, Selma Boiron, Milena Ciribelli MontagemLuiz Guimarães de Castro Música Herbert Vianna, Mário Neto, Laert Sarrumor
Confira a opinião do professor de Cinema da UFPE, Rodrigo Carreiro. Na lista das trilhas sonoras mais marcantes, nada menos que King Kong, Cidadão Kane, Três homens em conflito, Psicose e Tubarão.
Mais sobre a crítica
A crítica jornalística de Cinema tem quatro componentes básicos: a sistematização do raciocínio do resumo da obra, o envolvimento do texto com o contexto histórico, a análise mais consistente do filme, e finalmente o julgamento de gosto. E o componente sonoro, juntamente com a atuação, montagem, roteiro e tantos outros elementos do Cinema vão interferir definitivamente nessa análise mais apurada dos críticos, e até mesmo por parte da audiência, mesmo que um pouco menos atenta.